

Antes, o livro precisava viajar de mão em mão para que o clube pudesse se reunir. Hoje, o livro chega antes das pessoas.
Durante anos anunciaram a morte do livro. Primeiro seria a televisão. Depois, a internet. Vieram os e-books, as redes sociais, o celular e essa máquina de triturar atenção que nos acostumou a vídeos de poucos segundos. O diagnóstico parecia pronto: o livro de papel acabaria transformado em peça de museu.
Só esqueceram de combinar com os leitores.
Houve um tempo em que participar de um clube do livro exigia paciência. Poucos eram assinantes. O exemplar chegava, alguém lia e emprestava ao próximo. Depois a outro. E a outro. O livro viajava de mão em mão até que, meses mais tarde, finalmente podíamos nos reunir para discuti-lo.
Era uma leitura quase artesanal. Havia espera, empréstimo, conversa e, naturalmente, algum atraso daquele leitor que jurava devolver o livro “na semana que vem”. O exemplar carregava marcas de uso, páginas dobradas, anotações e até o cheiro da casa por onde havia passado. Antes de chegar à reunião, o livro já possuía uma pequena biografia.
Hoje tudo acontece numa velocidade quase inversa. O grupo escolhe uma obra e, em poucos minutos, o e-book ou o PDF já está disponível. A leitura começa simultaneamente, comentários aparecem no WhatsApp, referências chegam por links e a discussão muitas vezes começa antes mesmo do encontro presencial.
O livro, portanto, passou a chegar antes das pessoas.
Ainda assim, alguns nostálgicos — entre os quais me incluo sem qualquer constrangimento — fazem questão do exemplar físico. Talvez seja apenas apego. Talvez seja resistência. Ou talvez tocar o papel, riscar uma frase, dobrar discretamente uma página e guardar um livro numa estante seja uma maneira de conservar certa humanidade em um mundo cada vez mais imaterial.
Jorge Luis Borges dizia ser incapaz de imaginar um mundo sem livros. E talvez seja justamente essa permanência que os clubes de leitura estejam revelando.
Em Araguaína, dos antigos encontros marcados pela circulação paciente dos exemplares aos clubes contemporâneos em escolas, bibliotecas, instituições e grupos de amigos, a tecnologia mudou quase tudo — menos a vontade de conversar sobre aquilo que lemos.
E aí reside um paradoxo bonito do nosso tempo: quanto mais individualizada e fragmentada se torna a vida diante das telas, mais pessoas parecem desejar sentar-se juntas para falar sobre livros.
Não é apenas resistência do papel. É resistência da conversa, da escuta, da dúvida, do tempo dedicado ao outro.
O livro sobrevive porque nunca foi apenas um objeto. É memória, imaginação, companhia e encontro.
Depois de tantos obituários precipitados, talvez seja necessário corrigir definitivamente a manchete:
O livro não morreu.
Apenas encontrou uma estratégia bastante humana de sobrevivência.
Resolveu se reunir.
(Edson Gallo)